📌 FELIPA CRÍTICA: PODRES PODERES
O autor Gustavo Silva, estreou sua novela "Podres Poderes", na última segunda-feira pela Labirinto Radical. A trama que leva o nome da canção de Caetano Veloso, chama atenção pela estética, mas será que isso sustenta uma boa novela?
Podres Poderes chega com a pretensão explícita de ser uma web-novela “grande”, dessas que não pedem licença para entrar: já arromba a porta com drama social, vilania escancarada, corrupção sistêmica e sofrimento em escala industrial. O problema é que, nesse primeiro capítulo, a ambição quase sempre atropela o refinamento — e, em vários momentos, o próprio bom senso narrativo.
A abertura doméstica com Glorinha é funcional, mas excessivamente programática. A chaleira transbordando é um símbolo tão óbvio que beira o didatismo infantil: a vida está difícil, tudo vai derramar, entendemos. O texto parece não confiar no espectador em nenhum momento. Os diálogos explicam sentimentos, contextos e conflitos que já estão perfeitamente visíveis na ação. Nada fica subentendido; tudo é dito, repetido e sublinhado. Isso enfraquece a cena, porque transforma personagens em porta-vozes de ideias, não em pessoas reagindo ao mundo.
Glorinha é construída para ser empática, mas o roteiro insiste tanto nisso que acaba achatando a personagem. Ela sofre, trabalha, cuida do filho, do avô doente, sonha com um negócio próprio; tudo correto, tudo esperado, tudo entregue de forma quase mecânica. Falta contradição interna, falha humana, alguma sombra. Ela existe muito mais como função dramática do que como indivíduo. O mesmo vale para João Pedro, que surge mais como símbolo de futuro ameaçado do que como criança real.
O núcleo do beco é um dos poucos que respira alguma verdade. Ailton é problemático, a mãe é dura, a relação é cheia de histórico e ressentimento é isso funciona muito bem. Porém, o texto estraga parte desse potencial ao verbalizar demais aquilo que poderia ser mostrado com ações ou silêncios. Quando um personagem diz “você não é nenhum santo”, o roteiro está confessando que não soube dramatizar isso antes. Ainda assim, há ali uma base sólida que, se bem trabalhada, pode render conflitos menos óbvios e mais incômodos.
Já o núcleo do Banco Prado é onde a novela revela seu maior defeito: a ausência total de nuance. Natércia não é uma vilã complexa; ela é um conceito andando de salto alto. Tudo nela é exagerado, explícito, discursivo. Ela não age como alguém poderosa, ela age como alguém que precisa explicar o tempo todo que é poderosa e cruel. Frases como a teoria da avó sobre pobres e ricos não soam como pensamento íntimo de uma personagem, mas como manifesto ideológico jogado na cara do público. É panfletário, raso e, ironicamente, pouco perturbador, porque o espectador nunca acredita que aquela pessoa exista fora da função de vilã.
Horácio sofre do mesmo problema: ele não é um cúmplice, é um acessório narrativo. Entra, recebe dinheiro, confirma o esquema, sai. Tudo acontece com uma facilidade tão grande que a corrupção deixa de parecer um sistema complexo e passa a parecer uma sketch maligna. Desse modo, acaba evidenciando as limitações de Gustavo ao abordar os temas em questão. A corrupção, quando bem escrita, assusta porque é banal, como por exemplo em "Vidas Opostas" e "Poder Paralelo" ambas da Rede Record. Já em "Podres Poderes", parece que de podre não se limitou só ao título.
A coletiva de imprensa é outro exemplo de cena correta na intenção e fraca na execução. Todos dizem exatamente o que se espera que digam, sem qualquer fissura, sem ironia, sem desconforto. É uma vitrine limpa demais para um banco podre demais, e isso cria um desequilíbrio estranho: falta a sensação de fachada
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O núcleo de Joana e Alice merece reconhecimento pela representação respeitosa e afetiva, mas dramaturgicamente é quase inútil no capítulo. Não há conflito, não há ameaça, não há tensão. É uma ilha de harmonia num mar de podridão, o que poderia ser interessante, mas aqui parece apenas decorativo. A cena soa mais como uma cartilha de boa representação do que como parte orgânica da narrativa. Representar bem não significa eliminar conflito; pelo contrário, é justamente o conflito que humaniza.
A sequência envolvendo Valentina é, sem rodeios, o momento mais problemático do capítulo. A violência física praticada por Natércia é longa, repetitiva e exploratória. O texto confunde impacto com excesso. Não há elaboração psicológica, não há progressão emocional, só gritos, tapas e humilhação em série. Isso não aprofunda a personagem nem o drama; apenas choca. Pior: banaliza o abuso ao transformá-lo em espetáculo. A gravidez, que deveria ser um gatilho emocional devastador, vira apenas mais um elemento de choque jogado na pilha de desgraças.
O gancho final com Glorinha assinando o contrato abusivo é, paradoxalmente, onde a novela finalmente acerta o tom. A cena é simples, seca e cruel. Não há discurso inflado. É aqui que o título da obra faz sentido de verdade. O banco não precisa dizer que é podre, ele age como tal. Se o capítulo tivesse mais momentos assim, a obra ganharia força real.
A escolha da música de abertura também merece questionamento. “Podres Poderes”, de Caetano Veloso, carrega uma letra densa, irônica e altamente situada num contexto político e histórico específico, muito mais reflexivo do que dramático. A canção fala de estruturas de poder, sim, mas o faz de forma alegórica, intelectualizada e distante do melodrama direto que a novela propõe.
O resultado é um descompasso: a música sugere uma crítica sofisticada e simbólica, enquanto a narrativa opta por uma abordagem explícita, didática e muitas vezes panfletária. Em vez de dialogar com a trama, a canção funciona quase como um rótulo emprestado pelo título, sem aprofundar o sentido da história — o que faz a abertura parecer mais uma escolha de impacto do que de coerência dramática.
No geral, o primeiro capítulo de Podres Poderes sofre de excesso de personagens, excesso de explicação, excesso de discurso e falta de confiança na inteligência do público. Ainda assim, há uma proposta clara, temas relevantes e uma disposição rara de assumir o folhetim social sem pedir desculpas por isso.
Uma estreia barulhenta, desigual e muitas vezes grosseira, mas com material dramático suficiente para evoluir. Se a novela aprender a trocar discurso por ação, caricatura por contradição e choque por construção, pode deixar de ser apenas ruidosa e começar, de fato, a incomodar que é exatamente o que uma história como essa deveria fazer.
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