📌 FELIPA CRÍTICA: SÓCIO DO AMOR
A Estúdio Webs estreou mais uma nova novela. Com uma estética solar e cheia de uma narrativa empolgante, a trama chega com a promessa de ser algo maior do que é vendido, mas será que realmente se concretiza?
A ambientação no Rio de Janeiro é um dos maiores acertos do capítulo. A escolha de abrir com imagens aéreas, contrapondo Vidigal e Copacabana, é eficaz, visualmente forte e imediatamente compreensível. O contraste social não é novo, mas é bem executado e remete a produções como Avenida Brasil, Amor de Mãe e até Verdades Secretas, sobretudo na forma como a cidade é usada como personagem e comentário social. Funciona como cartão de visitas e estabelece o tom urbano-realista que a obra pretende sustentar.
Miguel surge como um protagonista sólido. Ele tem conflito interno, motivação emocional, pressão profissional e um passado que justifica suas escolhas. O vínculo afetivo com o pai falecido, associado ao caso das máscaras de chumbo e ao Linha Direta, é um motor dramático legítimo e bem escolhido, pois conecta memória, afeto e profissão. Diferentemente de muitos protagonistas de estreia, Miguel não é vazio nem genérico: ele é claramente delineado como alguém exausto, apaixonado pelo que faz e pressionado por todos os lados.
A estrutura em espelho entre Miguel e Rodrigo também é um ponto positivo. O texto constrói dois mundos paralelos de forma clara: de um lado, o esforço, a precarização e a sensibilidade; do outro, o privilégio, a arrogância e o vazio emocional. É um recurso clássico, mas eficiente. O primeiro encontro no metrô funciona como gatilho narrativo e sustenta bem a promessa do romance conflituoso que virá, dentro da tradição “inimigos que se atraem”.
O ritmo do capítulo, apesar de sua extensão, é funcional. Há deslocamento constante, mudanças de ambiente e novos conflitos sendo apresentados. Não é um capítulo parado, o que demonstra domínio de estrutura básica de dramaturgia e preocupação em manter o espectador engajado desde o início.
No entanto, o maior problema do capítulo é o excesso de explicação. O texto demonstra pouca confiança no espectador. Personagens dizem explicitamente quem são, o que sentem e quais problemas enfrentam, em diálogos que soam artificiais e pouco orgânicos. Miguel, por exemplo, enumera trabalho, faculdade, TCC e conflitos familiares em uma única fala, como se estivesse se apresentando em um formulário. Rebeka faz longos discursos sobre o valor profissional de Miguel, quando essas qualidades poderiam ser demonstradas por ação.
Os diálogos, em geral, sofrem com essa mesma rigidez. Há excesso de nomes próprios nas falas e frases muito “certinhas”, que parecem mais texto explicativo do que conversa real. Falta subtexto, falta ruído humano, falta aquela sensação de que os personagens estão dizendo uma coisa enquanto sentem outra. Isso aproxima o texto de novelas mais tradicionais ou de pilotos excessivamente didáticos, afastando-o de uma dramaturgia mais contemporânea.
Outro ponto problemático é o uso da trilha sonora. A quantidade de músicas populares é grande demais e, em vários momentos, a trilha parece funcionar como muleta emocional. Em vez de potencializar a cena, ela dita o que o espectador deve sentir, antecipando emoções que o texto e a encenação ainda não construíram plenamente. Aqui a trilha frequentemente explica a emoção, revelando certa insegurança narrativa.
Os personagens secundários também surgem de forma caricatural. Juan, Jhonatan e até Eduardo aparecem muito mais como arquétipos do que como pessoas complexas. Jhonatan, em especial, flerta perigosamente com um estereótipo sexualizado raso, algo que produções mais recentes têm evitado ou trabalhado com maior cuidado. Falta nuance e densidade, especialmente considerando que esses personagens provavelmente terão funções importantes mais adiante.
O final do capítulo tenta ser ousado visualmente, com congelamento de imagem, estilização gráfica e elementos coloridos. A intenção é clara: criar uma marca estética. No entanto, o recurso destoa do tom realista que o próprio capítulo construiu até ali. O resultado lembra mais uma vinheta ou recurso de série juvenil do que uma conclusão orgânica de um drama urbano, quebrando a unidade estética em vez de reforçá-la.
No conjunto, Sócio do Amor começa melhor do que a média, mas ainda preso a vícios clássicos da dramaturgia tradicional, especialmente o medo de deixar o espectador interpretar. Há material dramático real, personagens com potencial e um conflito central interessante. Se a obra aprofundar as contradições morais de Rodrigo, complexificar Miguel além do arquétipo do “bom moço sofredor” e reduzir o didatismo dos diálogos, pode crescer muito ao longo dos capítulos.
A proposta é forte, o protagonista é bem construído e a estrutura funciona, mas os diálogos explicativos, a trilha excessiva e a falta de subtexto impedem que o capítulo alcance um patamar mais alto.
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