✍🏼 451: ENTRE O EXAGERO E A AMBIÇÃO, A NARRATIVA QUE O MV PRECISAVA

Chega ao fim “451”, a nova série de Fernando Gibeli Ricoboni. Apesar do título direto e aparentemente simples, a produção está longe de seguir o mesmo caminho. Densa, cheia de camadas e construída com atenção aos detalhes, a narrativa se desenvolve com ambição rara.


Em um ambiente como o Mundo Virtual, que está cada vez mais dominado por melodramas, romances e narrativas urbanas de fácil assimilação, o surgimento de uma série como “451” chama atenção quase imediatamente. O episódio “Cinzas”, escrito por Fernando Ricoboni, representa algo relativamente raro dentro da plataforma: uma ficção científica distópica que tenta dialogar com temas maiores do que apenas o conflito entre personagens. Aqui, a ambição é clara desde o início: pensar memória, repressão cultural e sobrevivência intelectual em um mundo que parece ter reduzido tudo a ruínas; E essa ambição, por si só, já merece ser destacada.

Logo nas primeiras cenas do episódio final, o roteiro estabelece um cenário devastado: cinzas no chão, drones incendiando áreas da cidade, sirenes distantes, destroços espalhados. Não é apenas uma ambientação estética; é uma metáfora visual muito clara do universo narrativo. A sensação é de que o mundo já perdeu uma guerra silenciosa contra a ignorância institucionalizada. O roteiro não explica isso de forma didática, e esse é um dos seus principais acertos: ele prefere sugerir o estado das coisas através da paisagem e das ações dos personagens. A forma como Ricoboni trabalha o subtexto na sua trama é louvável e muito necessária. Ele traz um roteiro consistente, ao mesmo tempo que aborda uma narrativa ambiental.

Esse tipo de escolha revela um olhar mais cinematográfico do que um simples texto postado no site, isso vai além do que uma narrativa para entreter. Em vez de personagens despejando informações, o texto confia na força da imagem – apropósito, bem trabalhada as imagens e toda a estética. É uma decisão ousada, principalmente dentro do MV, onde muitas produções acabam recorrendo a diálogos excessivamente expositivos para acelerar a narrativa. 

Outro acerto do episódio está no simbolismo de elementos aparentemente simples. O caderno encontrado pelos personagens funciona como um pequeno centro gravitacional da cena. Em um universo onde ideias parecem ter sido queimadas junto com livros e arquivos, um objeto de escrita ganha peso quase mítico. Quando Rael menciona que escrevia ali “quando ainda achava que ia mudar alguma coisa”, a frase carrega um desencanto político que ecoa muito além do momento da cena. 

É nesse tipo de detalhe que “Cinzas” mostra que quer ser mais do que apenas uma distopia visualmente bonita. Existe ali uma tentativa real de discutir o valor da memória e da palavra, mas o episódio também deixa claro que ainda há espaço para evolução. O principal ponto que precisa amadurecer é a construção de personagens. Lydia e Rael funcionam bem como guias dos leitores nesse mundo destruído, mas ainda não se destacam completamente como indivíduos, falta mais personalidade para a ver algum tipo de identificação, mas isso pode ser algo mais pessoal da minha parte, eles serem assim pode ser um recurso narrativo proposto pelo autor. Suas falas cumprem função narrativa, porém raramente revelam algo mais profundo sobre quem eles são, o que pensam ou o que os move. Em histórias distópicas, onde o ambiente costuma dominar a narrativa, personagens fortes são essenciais para evitar que tudo se torne apenas contemplação estética.

Outro aspecto que poderia ganhar mais força é o subtexto político. O episódio sugere um sistema de controle opressor — drones, destruição sistemática, vigilância — mas ainda mantém esse poder como uma presença distante. Um pouco mais de clareza sobre quem controla esse mundo e como esse controle opera poderia aumentar significativamente o peso dramático das cenas. Também existe um pequeno problema de ritmo que merece atenção, mas nada que atrapalhe o bom desenvolvimento que foi esse final. O episódio aposta em uma cadência lenta e contemplativa, algo que pode funcionar muito bem quando sustentado por conflitos emocionais fortes. No entanto, em alguns momentos, a narrativa parece confiar demais na atmosfera e pouco na progressão dramática. Um pouco mais de tensão entre os personagens ou algum elemento de urgência poderia tornar o episódio ainda mais envolvente e finalizar essa crítica com nota máxima. 

Apesar dessas ressalvas, “Cinzas” tem algo que muitas produções do MV simplesmente não têm: identidade estética. Existe um olhar ali, uma intenção clara de construir um universo visual e simbólico próprio. Isso já coloca a série em um patamar diferente dentro não só da emissora, mas como de todo o mundo virtual. E talvez seja justamente aí que esteja sua maior importância. O MV precisa de produções que arrisquem mais. Que saiam do lugar confortável das fórmulas narrativas já testadas e tentem explorar outros gêneros, outras atmosferas, outras ambições temáticas. Uma série inspirada em um clássico da ficção científica literária, que se propõe a discutir censura, memória e sobrevivência cultural, amplia o horizonte criativo da plataforma. Ela mostra que o MV também pode ser espaço para narrativas mais densas, mais visuais e mais provocativas.

“Cinzas” não é um episódio perfeito. Seus personagens ainda precisam ganhar mais textura, seus diálogos podem se tornar mais afiados e sua trama pode revelar com mais clareza as engrenagens desse mundo distópico. Mas mesmo com essas limitações, o roteiro demonstra uma maturidade estética, além de uma ambição narrativa que merecem reconhecimento e um cuidado raramente visto nos últimos anos. É o tipo de episódio que talvez não busque agradar todo mundo – ainda bem, mas que certamente aponta para um caminho mais ousado dentro do MV.

Ao combinar estética forte, reflexões sobre memórias e uma consciência narrativa pouco vista, a obra de Ricoboni prova que o MV também pode ser terreno para histórias mais ousadas e provocativas. A série da Estúdio Webs encerra sua primeira temporada com relevância, impacto é uma experiência marcante.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

🎯 PRÊMIOS GÊNEROS 2025: CONHEÇA OS INDICADOS DA EDIÇÃO DESSE ANO

🚨 THE FELIPA AWARDS: CONHEÇA OS INDICADOS

🚨 RANABLE WEBS ABRE CHAMADA PARA SINOPSES DE PRODUÇÕES CURTAS